No momento entre o sono e o despertar, quando soa a profunda e longa nota do silêncio quebrado, a percepção paira no ar, com uma atenção desatenta curiosa. Lutando para superar a sensação morna da imobilidade, ele sonha.
Sonha o passado mais distante, que ainda não ocorreu.
Era então jovem novamente, e ela estava ao seu lado, como sempre estava naquela época. Este é o último dia antes de sua primeira separação, e depois disto seriam longos três anos até que se encontrassem novamente. Ele sabia disso, e gostaria de falar sobre a chuva, sobre aviões, sobre a política e sobre intimidade, mas não podia. Em sua velhice, não é mais um homem de palavras, e ainda que ali seja ainda jovem, se lembra de ser idoso.
Estão em um trem, cortando o caminho em velocidade, até chegar ao terminal, onde ele levaria as malas dela até o ônibus, que a levaria até o aeroporto, e então seria o fim, e o silêncio entre eles é doloroso.
- Eu adoro essa cidade.
Ela disse, para quebrar o silêncio.
Nada mais óbvio. Ela adora esta cidade, e ele a ama. Ama a cidade porque ela está nela, e ama aquele vagão, aquele trem, aquele garoto magro que vende balas, aquela senhora que cochila de boca aberta, só porque ela está ali, e só porque ama.
- Se sentir muita falta, te mando a cidade pelo correio.
Mas não mandaria, porque o momento veio e se foi, e ela voltaria por causa da cidade, mas acabaria encontrando a ele.
O terminal era iluminado por luzes fluorescentes enormes, suas ferragens expostas davam um ar industrial. O ônibus atrás do vidro já era o dela, mas ainda não conseguiam se despedir.
Ela se foi dizendo
- Você deveria escrever. Sempre achei que você tem jeito.
- Talvez.
E escreveria. Escreveria até os calos aparecerem, até secar as canetas, até sangrarem os dedos, porque quando escrevia, ela estava lá. Claro, descobriria isso depois de viver, mas lembrava-se mesmo assim.
Quando ela finalmente entrou no ônibus, ele comprou uma coca, sentou nos banquinhos, e pensou que poderia fazer jornalismo gonzo, realismo fantástico, romantismo rasgado em portunhol selvagem. Faria para que lessem, sem se preocupar. E morreria de horror quando o fizessem, porque certas coisas não mudam.
Então, sem mais nem menos, seu eu velho acordou, suando e pensando todas estas coisas, concluindo que os melhores sonhos são o das lembranças agridoces. Lembrou-se do suave retorno dela, em um dia de sol de fevereiro. Do dia em que mostrou seus escritos, e Ela, empolgada, declamara da janela do apartamento seu ‘soneto do abandono e do retorno’, como se gritasse para a cidade sua saudade. E pensou que sem o trem, o garoto magro, o ônibus e o adeus, não haveria retorno.
Com isso em mente, finalmente, o jovem que sonhava que era um velho sonhador, acordou. Levantou-se, lavou o rosto e pensou que se atrasaria para encontrá-la e pegar aquele trem.